segunda-feira, outubro 31, 2005

Medo. Muito medo.

Os apelos à direita, qual deles o mais lancinante, para que Mário Soares desista são absolutamente demonstrativos de algo.

Do medo terrível que têm do ex-Presidente da República, cuja sagacidade e inteligência podem fazer virar o rumo dos acontecimentos a qualquer momento.

Têm mesmo medo. Muito.

Justiça social

Esta mudança que aí vem.

Quem abandona um emprego por acordo não deve ter direito ao subsídio de desemprego. Ponto final.

quarta-feira, outubro 26, 2005

É sempre a descer

António Ribeiro Ferreira chegou à blogosfera.

A falta de educação permanente e o insulto gratuito a tudo o que não seja seguidismo direitista já começaram.

Como previsível.

Preço político

António:

O que diz não é verdade. Pagam um preço e bem alto. Político. Ou vai reduzir tudo nesta vida ao dinheiro ?

Ai esta direita...

terça-feira, outubro 25, 2005

Patético

Hoje, no Público, o texto de Carlos Reis "A crise das Humanidades".

A não perder

Rankings, de Rui Pena Pires.

sexta-feira, outubro 21, 2005

A Assembleia de Cavaco

Finalmente temos um Cavaco Silva sem tabus.

Hoje, quando entrevistado à entrada da Universidade Católica, chamou Assembleia Nacional à Assembleia da República...

E ainda...

Eu diria mais, Vital Moreira. Mesmo não sendo jurista, Villaverde Cabral devia conhecer o princípio da competência...

Artigo de Jamila Madeira

"Rodagem até Belém

Por Jamila Madeira - Eurodeputada

Passado este período eleitoral autárquico, chegou o momento que todos aguardam saber se, afinal, o homem que marcou parte de uma geração e de muitas juventudes, pelos piores motivos (ou não pelos melhores motivos), vai ser ou não candidato a presidente da República.

Nada de novo, afinal. Porém, desta vez, o dito senhor não irá certamente fazer a rodagem do carro até Belém e sair de lá presidente da República.

Recordam-se deste homem que, depois de dez anos como primeiro-ministro, saiu num tabu com o país e com o seu partido? E que voltou meses depois, novamente em forma de tabu e nada disse. E que logo de seguida perdeu.

Dez anos volvidos de muito silêncio e isolacionismo, este "académico" vai buscar a sua característica mais conhecida - o silêncio -, para se "mostrar" novamente aos portugueses. De mansinho, sem fazer ondas, vai-se instalando, sem que ninguém saiba o que sente ou pensa dos múltiplos problemas concretos que Portugal atravessa.

A última vez que em Portugal alguém apareceu assim, também chegou de mansinho, igualmente com uma imagem de grande profissional e académico (mas sem uma única exteriorização pública de posição alguma) e, quando demos por ele, ficou a "reinar" até cair da cadeira.

Este "novo" homem, ora recuperado, recebeu camiões diários de ECU e, mesmo assim, não deu um novo rumo ao país. Que, com mais camiões ainda, encontrou forma de deixar milhares e milhares de trabalhadores precários a manter o funcionamento do Estado português.

Foi ele que assegurou que, desse por onde desse, todos pagariam a sua educação e quem protestasse seria violentamente reprimido. Que assegurou que a Segurança Social pública não tinha sentido e, por isso, mais valia um sistema privado de protecção social como o dos Estados Unidos, em que a pobreza existe, mas não se vê (excepto quando há furacões!). Foi ele que travou o descontentamento de polícias com canhões de pressão de água e gás lacrimogéneo. Foi aquele que não quis saber da Imprensa, pois esta não diz a verdade e não lhe merece respeito. Foi aquele que não quis saber do Mundo, pois nunca se engana e raramente tem dúvidas.

Este homem procurou criar uma sociedade e uma geração que fosse egoisticamente competitiva e não saudavelmente cooperativa e progressista.

O homem que não chegou a dizer que Portugal está orgulhosamente só, mas não defendeu a entrada de Portugal na CEE. O homem que defendeu que cada um de nós é um número (a mais ou a menos) e que é individualmente que temos de tratar da nossa vidinha e esquecer os outros, pois só empatam!

Este homem quer agora pôr o país em suspense, à espera que ele seja o D. Sebastião, o salvador da Pátria. Ou mesmo à espera que ele seja o Príncipe Perfeito. Este homem quer que esqueçamos aquilo que todos conhecemos, mas de que poucos já se lembram e que, com aquilo que ninguém ouviu da sua boca, o declarem líder salvador de Portugal.

Líderes como o JFK, W. Churchill, Nelson Mandela, F. Mitterrand são líderes que se comprometem. Líderes que lutam por aquilo que acreditam e que combatem aquilo em que não acreditam. Com líderes como estes, o povo sai à rua por eles, abraça com eles as suas causas. Estes são líderes democráticos. Os líderes democráticos ouvem o povo e procuram que este acredite neles e os siga, não promovem um seguidismo cego ou mesmo despido de cor, brilho ou ideal.

Os líderes democráticos esperam que, se for caso disso, o povo lhes diga que "o rei vai nu", (!) e que eles possam refutar dizendo e descrevendo as suas pomposas vestes.

Ao contrário destas grandes figuras internacionais, que "novo" homem é este, tão perfeito, que se alguém lhe disser que "vai nu" ninguém consegue sequer imaginar como vai descrever as suas vestes.

As vestes são claras autoritarismo e arrogância de quem não quer discutir com o povo. O lobo vestido de cordeiro!

Professor Cavaco Silva, por uma vez, mostre-se para que todos o possam ver!"

quinta-feira, outubro 20, 2005

O PS e Mário Soares

Simples, Paulo Gorjão: uma coisa é a estratégia da candidatura, outra coisa é a estratégia do Partido relativamente a essa candidatura.

quarta-feira, outubro 19, 2005

O Quadrado

Manuel Alegre, com o beneplácito da comunicação social, não tem precisado de esclarecer as suas contradições.

Quando existiram figuras ou até orgãos locais do PS que exprimiram o seu apoio a Manuel Alegre, este não se coibiu de o exibir e até utilizar (recorde-se a campanha eleitoral autárquica).
Mas hoje veste o seu fato de poeta, sobe ao pedestal e afirma:
"Não preciso do PS para nada"

Manuel Alegre vai ainda mais longe.
Este último reduto da nossa República afirmou ainda que a sua candidatura à Presidência da República "é independente, suprapartidária" e, como tal, não precisa dos meios e estruturas do PS "para nada".

Ora, na nossa República, todas as candidaturas à Presidência são "independentes e suprapartidárias", desde a de Francisco Louçã à de Cavaco Silva (?).

Mas mais uma vez, infelizmente, Manuel Alegre mostra aquele traço de superioridade e arrogância intelectual de alguma esquerda, que aliás o acompanha.

Veja-se o percurso de Manuel Alegre:
Primeiro disponibilizou-se para ser candidato à Presidência da República.
Depois, não tendo o apoio do PS, hesitou.
Em seguida, anuncia que não pretende dividir a esquerda e o PS com a sua candidatura.
Decide, afinal, que seria candidato, numa acção de campanha do PS.
E agora vem dizer, de peito aberto, que não precisa do PS para nada.

Só pode ser poesia.
Ao quadrado.


Os 30 anos das independências de África

No âmbito do tema «Os 30 anos das independências de África», o DN trás hoje uma entrevista com Almeida Santos, «o homem que, em nome de Portugal, negociou as independências de África».

Uma entrevista obrigatória principalmente para aqueles que ainda alimentam ódios antigos a Almeida Santos (alargados, por simpatia, a Mário Soares).

Eis alguns excertos:

«A razão principal que determinou a maneira como decorreu a descolonização foi o facto de termos descolonizado tarde e a más horas e ao fim de dez anos de guerra

«Mas a verdade é que, em relação ao colonialismo e em relação à descolonização, a culpa é mais repartida do que se julga. Todos os indivíduos que estiveram com o Salazar não têm culpa da descolonização e da guerra? Todos os indivíduos que lhe bateram palmas, que lhe deram apoio, não têm? Aqueles que depois disseram que sempre foram o que nunca não tinham sido, não têm culpa nenhuma? É evidente que a culpa é muito mais partilhada do que se julga. (...) Uma vez, um velho amigo, colega meu de Lourenço Marques, avô do Francisco Louçã, um grande resistente, entrou-me pelo escritório adentro e disse-me assim "Eu quero ser preso." "O senhor quer o quê?", disse-lhe eu. "Quero ser preso, você ouviu muito bem." "Mas quer ser preso porquê, homem?", insisti. "Quero ser preso porque se eu estou em liberdade com um regime como este, é porque não fiz aquilo que devia, não resisti aquilo que devia ter resistido".»

«É hoje um homem de consciência tranquila quanto à descolonização?
Fui o único político português que negociou e assinou todos os acordos da descolonização. Vivi-os por dentro. Todas as tragédias, dramas, etc. E uma das coisas que eu digo é isto responsabilidades, tenho que ter. Pelas funções que exerci, é evidente que teria sempre que ter. Culpas: zero. Nada. Não me pesa a consciência de ter feito alguma coisa com a consciência de que estava errada e que, apesar de tudo, não a corrigi. Ah, isso não. Posso garantir. Tenho a consciência tranquila.»

Mais um alerta...

À atenção do Super Mário:

Não bastavam as declarações de Morais Sarmento, vem hoje Paulo Castro Rangel, no Púlico, insinuar que Jorge Sampaio deveria ter impedido a fusão entre as pastas das Finanças e da Economia e que o Presidente da República deve ter responsabilidades constitucionais na composição pessoal e organização do executivo.

E ainda há quem não ache que seria perigoso Cavaco Silva ser Presidente da República ?

terça-feira, outubro 18, 2005

A Seca

«Excelentíssimo Senhor Primeiro Ministro,

Escrevo-lhe para lhe dizer que estou ao lado dos senhores agricultores por causa do terrível problema da seca. Tenho visto os senhores agricultores na televisão e devo dizer-lhe que os compreendo inteiramente e que eles têm toda a razão.
Aqueles homens dependem da terra para viverem!
Se não chove, não recebem o dinheirinho dos subsídios.
E a crise não está aí para brincadeiras.

Agora veja bem o meu problema:
Eu tenho uma oficina de bate-chapas aqui na Buraca.
Sou uma espécie de agricultor urbano, um agricultor do ferro.
Quando chove aqui na cidade, há aqueles pequenos 'toques' e 'batidelas' por todo o lado, que até nem magoam ninguém. Depois vêem ter aqui à minha oficina, que eu até faço um bom preço e sem aquele tal do IVA. E ainda consigo umas revisõeszitas periódicas. Tudo trabalho honesto!
Mas quando passa um ano inteiro sem chover, eu bem sinto a pancada.

Está a ver pois como eu bem compreendo os senhores agricultores.
Até costumamos discutir estas coisas quando me aparecem por cá com os jeeps.
A nossa actividade depende da chuva.
Se não cai chuva, não cai dinheirinho.
E eu já tenho por aqui dois ucranianos e um moldavo parados, a quem já não tenho trabalho para dar.

Por isso, Senhor Primeiro-Ministro, venho-lhe pedir um subsídio para a seca.
Se o Governo de V/ Excelência não é capaz de fazer com que chova, acabamos todos por ficar na penúria.
Pelas minhas contas, eu devo ter tido no último ano uma quebra de rendimento de cerca de 2.500 contos (vinte e tal mil euros). Não sei quanto é isso em vacas ou milho, mas se me derem metade já dá para aguentar o estaminé.
Junto envio o nibe da minha Maria, e fico à espera de notícias suas no multibanco.

Um Abraço,

Toni da Buraca»

Uma tristeza

Jorge Lacão comprometeu-se a transformar a horrível lógica das quotas por género em lei. E eu a julgar que já se tinha desistido dessa ideia imbecil.

Esperamos, portanto, que 25% dos militantes de um partido tenham direito a 40% dos lugares, sem qualquer relevância do mérito. Vergonhoso. E inconstitucional, por muito que todos os constitucionalistas de serviço digam o contrário.

segunda-feira, outubro 17, 2005

Autarquias

Não deixa de ser interessante a reflexão que Pedro Ferraz da Costa faz sobre o Poder Autárquico no artigo do DN de hoje, intitulado «Caciquismo e Coesão Nacional»:

«O poder autárquico tem vindo a transformar-se num contra-poder ao Governo central e até ao próprio Estado. E o problema, no actual enquadramento constitucional e orçamental, só pode agravar-se.
Não é possível ao Governo controlar o deficit orçamental sem poder, de facto, controlar a administração autárquica, que gasta sobretudo a criar empregos improdutivos para assegurar a sua continuidade e a fazer investimentos de fachada mas de rentabilidade eleitoral confirmada em cada eleição. Faz obra...»
(...)
«Criar um "poder local" que não responde perante nenhum outro órgão do Estado a não ser os tribunais, com a lentidão e ineficácia que os caracteriza, libertá-lo do ónus de cobrar os impostos necessários à cobertura das despesas que faz, deixá-lo contornar limites ao endividamento através do leasing e até pela securitização de receitas futuras, permitir através de empresas municipais e intermunicipais evitar o controlo normal das despesas públicas, originou a situação actual e a futura.»

Exactamente

100% de acordo com Henrique Raposo.

Se há coisa para que não há paciência nenhuma é, decididamente, para o "saudavelmente correcto".

sexta-feira, outubro 14, 2005

Filhos de Um Deus Menor

Parece que o CDS/PP de Ribeiro e Castro também quer esclarecer as leituras políticas sobre as eleições autárquicas, lembrando ao PSD que apresentaram listas conjuntas em 60 Concelhos.

Com estas coligações obtiveram 20 vitórias:
Vieira do Minho (ganha ao PS), Ribeira de Pena, Vila Pouca de Aguiar, Famalicão, Maia, Penafiel, Porto, Vila Nova de Gaia, Lamego (ganha ao PS), Penalva do Castelo, Estarreja, Aveiro (ganha ao PS), Nelas (ganha ao PS), Santa Comba Dão (ganha ao PS),Montemor-o-Velho, Coimbra, Miranda do Corvo, Alter do Chão, Sintra e Cascais.

Com tantos foguetes, parece que muita gente se esqueceu de que os ajudou a fazer a festa...

A Conversa do Rolo

No DNA de hoje, Pedro Rolo Duarte explica como foi o seu «Voto Difícil» em Maria José Nogueira Pinto nas autárquicas de Lisboa, sendo ela do CDS/PP e ele uma pessoa de esquerda.

Lembra o famoso sapo da 2ª volta presidencial de 86, quando o PCP «pedia aos militantes para que tapassem a cara do candidato com a mão esquerda e... votassem nele com a mão direita», tendo ele tapado no domingo o símbolo do CDS/PP.

Elogia as características de Maria José Nogueira Pinto.

Zurze os candidatos autárquicos de Norte a Sul do País, considerando que:
«Esta campanha eleitoral mostrou Portugal no seu pior e a política no seu sentido mais baixo: a mentira, o voto comprado, a ignorância, o caciquismo, a prepotência, a ambição desmedida. Mostrou um País que vive de favores e fretes que dão votos, e de fascínios mediáticos sem sentido

Diz que percebeu «também que Portugal tem exactamente o que merece». E daqui para a frente não se cansará «de recordar este triste momento da nossa ignorante e pobre democracia

E que «A partir de agora, é sobre pessoas que falamos. É em pessoas que votamos. O resto é conversa.»


Eis o retrato de um intelectual de esquerda, com as suas dúvidas existencialistas, e que tenta explicar a si próprio o seu voto.
Provavelmente terá razão em todo o seu raciocínio.

Este intelectual de esquerda, depois de muita aturada reflexão, temperada com a natural indignação contra o sistema, votou.
E tal como ele diz, tem exactamente aquilo que merece:

Carmona Rodrigues, Presidente da Câmara de Lisboa.

«O resto é conversa.»

quinta-feira, outubro 13, 2005

Não resisto a comentar

Em O Insurgente, André Abrantes Amaral faz um desafio ao PSD e ao CDS:


Algumas reformas indispensáveis que PSD ou CDS poderiam vir a sugerir:

a) Fim da segurança social obrigatória;
b) Introdução de impostos municipais;
c) Flexibilização da lei laboral;
d) Alteração do regime laboral da função pública;
e) Redução do IRS;
f) Fim do IRC;
g) Fim do Rendimento Mínimo Garantido;
h) Privatização da RTP, RDP, TAP, CTT, CP, etc;
i) Simplificação do processo de dissolução das sociedades;
j) Fim do apoio aos clubes de futebol;
k) Hipermercados abertos nas tardes de domingo;
l) Introdução da flat tax;
m) Fim dos incentivos às empresas;
n) Extinção de inúmeros institutos públicos inúteis;
o) Revisão da Constituição, e
p) Extinção do ministério da cultura.

Existem diversas outras medidas (como a descida do IVA) que deveriam ser aplicadas com urgência. Outras ainda, não tão urgentes, mas não menos importantes, como a profunda alteração do conceito de ensino público (com a introdução dos vouchers), do serviço nacional de saúde e uma reforma do sistema de funcionamento dos tribunais.


Não resisto a comentar, ainda que a provocação seja dirigida a outra área ideológica.

Concordo:

b), por permitir responsabilizar directamente os autarcas pelo uso dos dinheiros públicos;
d), o regime de trabalho da função pública deveria ser extinto, convolando-se todos os contratos em contratos individuais de trabalho;
i), embora tendo em conta todas as partes envolvidas;
j), evidentemente;
k), mas isso é pouco, urge a liberalização integral dos horários de comércio;
m), obviamente;
n), se efectivamente forem inúteis;
p), porque se a intervenção pública na Cultura passar a limitar-se, como deveria ser, ao património, uma Secretaria de Estado é mais que suficiente.

Tudo depende de tudo:

c), tendo em conta o que se entende por flexibilização; se for facilitar despedimentos, obviamente discordo;
e), prometer isso em abstracto é uma alarve irresponsabilidade;
o), a Constituição é sempre revisível, mas se for para os efeitos que penso que AAA deseja, discordarei até à última;
- reforma do funcionamento dos tribunais.

Discordo:

a), por razões óbvias de solidariedade social e da responsabilidade de todos no assegurar das prestações sociais;
f), era cá uma justiça social fazer os trabalhadores sustentar o Estado e as empresas não...;
g), tendo em conta pelo menos a forma como eu entendo o instituto;
h), nem pensar em acabar com o serviço público de televisão e de rádio (ainda que a Antena 2 devesse ser radicalmente alterada, porque aquilo não é serviço público), e idem aspas para os correios; a TAP é uma situação a ponderar; quanto à CP, após a liberalização não vejo qualquer necessidade em manter a empresa sob controlo público;
l), porque é justo que quem mais ganha contribua com uma maior parte do seu rendimento;
- descida do IVA, porque seria neste momento extremamente irresponsável;
- alteração dos conceitos de ensino público e do serviço nacional de saúde.

quarta-feira, outubro 12, 2005

Os meus apontamentos autárquicos

1. O primeiro apontamento vai no sentido de dizer que nenhum partido sai realmente vencedor destas eleições:

a) o PS mantém no essencial a sua votação, se considerarmos que 3/5 dos votos da coligação em Lisboa lhe pertenciam, muito embora tenha perdido municípios importantes tais como Aveiro, Barreiro e Santarém;

b) o PSD desce a sua votação a nível nacional, aliás a soma dos votos do PSD e das coligações em que esteve envolvido desce 1,35%, algo surpreendente tendo em conta que em muitos casos se estava no final de um primeiro mandato;

c) a própria CDU sobe apenas 0,35%, ainda que recupere bastiões como o Barreiro, Marinha Grande e Sesimbra, e consiga a presidência de juntas de freguesia importantes tais como Ajuda, Alcântara e Carnide;

d) o CDS é fundamental nalgumas vitórias em coligação com o PSD, e cada vez mais ao nível autárquico é apenas uma muleta daquele; aliás, o fraquíssimo resultado de Maria José Nogueira Pinto em Lisboa é a prova de que à direita o voto útil não perdoa;

e) o BE falhou alguns objectivos como o de se tornar a terceira força em Lisboa e de eleger um vereador no Porto, mas mais que duplicou a sua votação, ainda que só concorrendo em mais 30 câmaras que há 4 anos;

f) as listas independentes vão aparecendo mais e mais, e provavelmente a prazo serão sempre forças importantes; esperemos que as alterações que aí vem reduzam a possibilidade de militantes de partidos de candeias às avessas com eles utilizarem este expediente, porque isso não corresponde a verdadeiras candidaturas de grupos de cidadãos.

2. Lisboa

O voto útil à direita tem muita força, e provou-se à exaustão que Carrilho é uma menos-valia. Provavelmente, a sua carreira política acabou aqui, e o melhor que José Sócrates tem a fazer é não o incluir nas listas de Deputados em 2009. Muito mérito igualmente para a CDU, principalmente ao nível das freguesias.

3. Porto

Como previsível, uma vitória inquestionável de Rui Rio, com maioria absoluta. Era difícil a qualquer candidato do PS contrariar essa tendência.

4. Açores

Berta Cabral aumentou a sua maioria para 67% em Ponta Delgada. Que pena, José Carlos Sanbento...

5. Aveiro

Para além da mais que previsível derrota do PSD em Águeda depois do escândalo Cruz Silva (e onde governava desde 1976), foi uma enorme surpresa a vitória da coligação PSD/CDS em Aveiro sobre Alberto Souto. Mas dizem as más-línguas que este acabou por se encostar à sombra da bananeira e...

6. Beja

A montanha em Beja pariu um rato, e o PS não só não ganhou como perdeu cerca de 5% para o PSD, tradicionalmente terceiro partido. Quanto ao resto, a vitória em Ourique não apaga as perdas de Alvito para um movimento de independentes e de Vidigueira e Barrancos para a CDU. Nota ainda para a subida do PS em Aljustrel através de Nelson Brito, a indiciar que a Câmara poderá virar proximamente.

7. Braga

Mais relevante que as vitórias do PSD, sozinho ou em coligação, em Póvoa do Lanhoso e Vieira do Minho, parece-me ser o estreitar da vantagem de Mesquita Machado sobre a coligação PSD/PP de 12 para 6,5%.

8. Bragança

Apenas Freixo de Espada à Cinta mudou, do PSD para o PS. Nada mais a acrescentar.

9. Castelo Branco

O PS recupera Belmonte e mete mais uma lança na dificílima zona do Pinhal, conquistando Proença-a-Nova que assim junta à Sertã, onde após a vitória na sequência de cisões no PSD José Farinha obteve 52% e a correspondente maioria absoluta.

10. Coimbra

Os factos mais relevantes ainda acabam por ser:
a) a vitória de João Gouveia, agora pelo PS, em Soure sem maioria absoluta;
b) a descida percentual de Carlos Encarnação, basicamente perdendo aquilo que o BE subiu.

11. Évora

A CDU perde Estremoz e Redondo, e a clara subida do PSD em Évora tira a maioria absoluta ao PS, ainda que a margem da vitória tenha sido maior.

12. Algarve

Viragem na capital, com a vitória justíssima de José Apolinário sobre a nulidade José Vitorino. Pena a derrota em Vila Real de Santo António, mas não tenho dúvidas que dentro de alguns anos o PS voltará a ser poder, na altura certamente com o Ricardo Cipriano como Presidente da Câmara.

Notas ainda para a brutal subida do BE em Portimão para 7% (às custas do PS), para a clara subida do PS em Silves para o 2º lugar às custas da CDU, e para a claríssima maioria PSD em Albufeira.

13. Guarda

Se a mudança em Foz Côa não foi surpresa, pelo contrário a vitória do PS em Celorico da Beira é manifestamente surpreendente e deixou-me muitíssimo satisfeito. Muito amarga, a derrota em Manteigas por 1 voto. Por outro lado, Joaquim Valente até reforçou a maioria na Guarda, colocando um fim às ambições autárquicas de Ana Manso.

14. Leiria

Vitórias CDU em Peniche e Marinha Grande. O PS ganha Porto de Mós ao PSD mas perde Figueiró dos Vinhos. Isabel Damasceno perde a maioria absoluta em Leiria.

Infelizmente, maus resultados para António Galamba nas Caldas da Rainha e para Daniel Adrião em Alcobaça. Jorge Gabriel Martins poderá dentro de 4 anos vencer o Bombarral. João Benavente nada pôde fazer na Nazaré depois do aparecimento de uma lista independente que dividiu a oposição. Em Pedrógão Grande, foi o descalabro...

15. Lisboa

Acabei por ficar surpreendido com a triste vitória de Isaltino Morais em Oeiras, pois estava convencidíssimo, no decorrer da campanha, que Teresa Zambujo ganharia e por uma margem clara. A explicação é simples: Isaltino agarrou a grande maioria do eleitorado PSD, ao qual juntou, e em número ainda maior que o habitual, a sua usual base de apoio nos bairros sociais.

No restante, Susana Amador aguentou Odivelas por uma unha negra, num quadro de forte subida da CDU.

Pena que o distrito não vá contar como Presidentes de Junta com algumas pessoas que seriam fantásticas: Gonçalo Velho em Carnide, Inês Sanches em Carnaxide, Sandra Paulo em Santa Iria de Azóia.

16. Madeira

A Ponta do Sol esteve quase, quase...

17. Portalegre

O mais relevante é, obviamente, a estrondosa vitória do PSD na capital de distrito com 64%. Verdadeiramente impensável.

18. Porto

Fátima Felgueiras e Valentim Loureiro venceram, o PS ganhou Baião (não ficando longe de conseguir Valongo) e o PSD Marco de Canaveses.
Curiosamente, em mais de um município há quebras do PSD/PP e quem sobe é o BE...

19. Santarém

A única coisa boa da derrota de Rui Barreiro é que se acaba uma experiência do absurdo "orçamento participativo". E se houvesse justiça, Nuno Antão teria sido eleito o novo Presidente da Câmara de Salvaterra de Magos.

20. Setúbal

Apesar de mais uma vitória com maioria absoluta, a cabeça de Maria Amélia Antunes está certamente a prémio dentro do PS, depois das derrotas em Alcochete, Barreiro e Sesimbra (aqui com o voto BE a chegar aos 10,6%) e do horrível resultado em Setúbal.

21. Viana do Castelo

Apenas Ponte da Barca mudou. Nada mais a dizer.

22. Vila Real

Apostas falhadas do PS em Vila Real e Ribeira de Pena. E, pior, vitória PSD na Régua, que compensa amplamente a perda de Sabrosa para um grupo de cidadãos...

23. Viseu

Péssimo. João Azevedo não ganhou Mangualde, e perda de Lamego, Nelas, Santa Comba Dão e Vila Nova de Paiva, para além de descida clara em Tarouca. Menos más apenas a subida de 6% em Viseu, bem como a enorme maioria de António Borges em Resende, com 65%.

terça-feira, outubro 11, 2005

Apontamentos Autárquicos

Muito embora a análise das eleições autárquicas merecesse ser vista Concelho a Concelho, a tentação de explicar e generalizar os resultados eleitorais é sempre inevitável.
Há opções para todos os gostos:

Somas aritméticas - ou seja, contabilização de Câmaras Municipais e Juntas de Freguesia, mandatos conquistados e votos.
O PSD vence em Presidências de Câmara (não estritamente em número de Câmaras, dado o elevado número de alianças eleitorais, nomeadamente com o PP).
Mantêm-se como a força política mais influente nas autarquias.
Não será este um contra-poder para quem têm usado o fantasma da hegemonia do PS?
(apesar do sonho do PPD de Sá Carneiro ser «Um Governo, Uma Maioria, Um Presidente»).

Populismo - certas vitórias foram atribuídas ao populismo das candidaturas.
Quem decide se um candidato é mais ou menos populista? A comunicação social e os «spin doctors»?.
Valentim Loureiro é mais ou menos populista que Rui Rio?
Carmona do que Carrilho?

Má escolha de candidatos - nomeadamente dos que pretendem ser alternativa à «situação».
Carrilho foi má escolha para Lisboa?
Assis para o Porto?
João Soares para Sintra?
Emanuel Martins para Oeiras?

Política do Governo - terão os eleitores aproveitado estas eleições para penalizar o partido do governo, votando noutros partidos (ou ficando em casa)?
Neste caso, a avaliação do desempenho das autarquias nos últimos 4 anos e das propostas das diferentes candidaturas não é relevante.
Apenas Marques Mendes lá foi dizendo, timidamente, que não se deviam tirar conclusões nacionais das eleições locais.
Jerónimo de Sousa e Francisco Louçã foram mais longe, defendendo activamente que os eleitores deviam votar contra o PS, para penalizar as suas «políticas de direita».

Estratégia de alianças - que à direita tiveram resultados.
Deveria o PS ter feito alianças à esquerda?
Queria a esquerda fazer alianças com o PS?
Devia a esquerda fazer alianças com o PS?


Questões Avulsas:

Se Mário Soares não fosse candidato presidencial, alguém o acusaria de violar a Lei Eleitoral pelo facto extraordinário de revelar o desejo na vitória do seu filho?

O que aconteceu a Alberto João Jardim por ter garantido que o seu Governo Regional não daria qualquer apoio a autarquias que não fossem do PSD?

Os famosos contratos dos Assessores de Carmona Rodrigues chegaram à comunicação social?

Marcelo Rebelo de Sousa deixará de zurzir semanalmente Carrilho?

E os outros Marcelos wannabes?

Para quando a revisão da Lei Eleitoral que permita a eleição dos executivos camarários de forma maioritária?

Miguel Coelho já se demitiu?
(quem se questionar quem é Miguel Coelho, pôe o dedo na ferida...)

segunda-feira, outubro 10, 2005

Autárquicas

Houve poucas surpresas nestas eleições autárquicas.

Em Lisboa, quem escolheu Santana Lopes há 4 anos continuou a sua aposta em Carmona Rogrigues. E muitos viram os seus fígados satisfeitos com a derrota de Carrilho.
Rui Rio sucede a Rui Rio no Porto, Seabra a Seabra em Sintra, tal como Mesquita Machado em Braga.

Dos 4 candidatos arguidos, apenas Avelino Ferreira Torres foi barrado em Amarante. Valentim Loureiro, Fátima Felgueiras e Isabel Damasceno foram reconduzidos.

O PS, tal como há 4 anos, continua a ser o partido com o maior número de votos a nível nacional (para quem ainda não tinha reparado façam as contas), mas acaba por perder politicamente estas eleições.

O PSD ganha o maior número de Câmaras Municipais, embora perca Oeiras;

O PS falha estrondosamente as suas apostas em Lisboa, Porto e Sintra.

Em relação à CDU e ao BE, vieram apenas demonstrar que «o crime compensa»...
Jerónimo de Sousa irá de vitória em vitória, até à derrota final.
(Alguém ainda sabe a diferença entre o PC e os Bloquistas?)

Pessoalmente, há dois resultados que gostaria de sublinhar.

Pela negativa, a vitória de Moita Flores sobre Rui Pedro Barreiros, não num argumento de uma novela, mas em Santarém. A vitória de um pouco comentado populismo (politicamente correcto), que contou com a muito anunciada estreia da sua série televisiva sobre Inês de Castro em vésperas de eleições (se a RTP fizesse uma destas a um candidato do PS...).

Pela positiva, a vitória de José Apolinário em Faro sobre José Vitorino, no ano do desastre de «Faro ? Capital da Cultura».

E reforço a minha convicção que os portugueses merecem aquilo que escolhem, mesmo que alguns de nós não tenham culpa nenhuma.

Viva a Democracia!

sexta-feira, outubro 07, 2005

Pode um desejo imenso



Hoje e amanhã realiza-se no Teatro Camões o bailado "Pedro e Inês" pela Companhia Nacional de Bailado (CNB) com coreografia de Olga Roriz para registar os 650 anos da morte de Inês de Castro.

O bailado é baseado na mais conhecida das tragédias de amor portuguesas, a eterna paixão entre D. Pedro I e D. Inês de Castro, contrariada em vida, pelo seu pai, o rei D. Afonso IV.

Se adquirirem os bilhetes com cartão FNAC (passo a publicidade) têm desconto de 50%.

Aí está uma boa sugestão para a noite de reflexão eleitoral antes do grande dia.

E se a hecatombe for do PSD ?

É provável que coisas improváveis aconteçam.
ARISTÓTELES in Poética










Num post anterior referi a possibilidade do PS sofrer uma hecatombe eleitoral.

Hoje, as sondagens da Intercampus/TVI colocam a possibilidade do cenário inverso: a derrota do PSD.
Parece ser claro que o PS triunfará em Faro, podendo juntar as vitórias em Lisboa, Porto, Sintra e Beja.
A confirmar-se tal triunfo ou parte dele, o PS tem manifestas razões para ficar satisfeito:
Obterá mais votos que o PSD e vencerá Câmaras Municipais que eram dadas como perdidas.
E isto num clima de permanente contestação social em que o governo em nome do futuro de Portugal nunca deixou de tomar decisões impopulares...

quinta-feira, outubro 06, 2005

Coisas da Vida

«No próximo domingo, vou-me levantar e cumprir a minha rotina matinal. Depois, hei-de vestir-me com fingida casualidade, como se votar não fosse (para mim, continua a ser) um ritual investido de uma solenidade profunda e autêntica, e irei depositar o meu voto num candidato que não me entusiasma, para evitar que outro, de que não gosto, continue a fingir que governa esta desgovernada cidade de Lisboa.»

António Mega Ferreira in Visão 06/10/05

quarta-feira, outubro 05, 2005

Orgulho e Preconceito

A mediatização da sociedade é incontornável.
Um bom exemplo é observável em qualquer manisfestação dos novos tempos, onde apenas se gritam os slogans preparados quando as televisões começam a filmar.

Na área política, a relação entre os orgãos de comunicação social e os políticoa é simbiótica, de que resulta uma dependência recíproca.
E com a estabilização dos ?opinion makers? da nossa praça, a divisão entre notícia e opinião política é marcada por uma linha cada vez mais ténue, que os próprios jornalistas parecem ter dificuldade em encontrar.

Os media, representando a corrente de opinião do politicamente correcto, odeiam claramente alguns candidatos autárquicos, como Valentim Loureiro, Fátima Felgueiras, Avelino Ferreira Torres (Isaltino Morais menos), ou políticos como Alberto João Jardim e Santana Lopes.

Mas nestes casos, paradoxalmente, a mediatização negativa destes políticos apenas lhes serve para aumentar a notoriedade (e os votos).

Há situações inversas.
Quando Rui Rio declarou guerra aberta a Pinto da Costa ganhou o respeito e simpatia de toda a comunicação social. Por muitas confusões em que ele se meta (e não foram poucas), surge sempre numa perspectiva agradável, quase quixotesca. Nem Paulo Morais conseguiu travar esta tendência.

No lado oposto está claramente Manuel Maria Carrilho.
Provavelmente por várias razões.

Há quem tenha contas a ajustar com o ex-Ministro da Cultura.
Há quem não esqueça a oposição que fez a António Guterres.
E há quem não perdoe a arrogância do Professor de Filosofia, o escolhido de Bárbara Guimarães.

Doutra forma, como se compreende que, aquando do lançamento da sua candidatura, da famosa declaração dos não-sei-quantos-caracteres e de um vídeo de 15 minutos, tenha sido apenas notícia os 14 segundos em que Bárbara declara apoiar o marido?

Ou que, após um debate com Carmona Rodrigues, onde prometeu entregar à comunicação social as provas de sustentação de todas as acusações que lhe dirigiu, apenas foi notícia o seu não-cumprimento (em off)?

E que o ?grande ordinário? que lhe dirigiu Carmona (em off) tenha sido considerada uma reacção natural?

E que todos se tenham esquecido de Pedro Santana Lopes, o anterior Grande-Edil?

Rui Rio provavelmente ganhará.
Carmona Rodrigues, por entre as gotas da chuva , o túnel do Marquês e o Parque Mayer, também.

Mas Domingo será o dia de Valentim Loureiro, Fátima Felgueiras, Avelino Ferreira Torres e Isaltino Morais.

Para orgulho da comunicação social que os construiu.

terça-feira, outubro 04, 2005

VIVA O 5 de OUTUBRO!



Nos bastidores de uma história até agora mal contada.



Como a República foi de facto implantada
em Portugal em 5 de Outubro de 1910: a cumplicidade
da Realeza britânica
e da Maçonaria inglesa na queda
da Monarquia Constitucional no nosso País.





Caros Blogers,

Na véspera da data comemorativa dos 95 anos da Implantação da República Portuguesa
(apesar da República ter sido proclamada em diversos concelhos a 4 de Outubro de 1910) recomendo vivamente um livro lançado recentemente por um amigo e conterrâneo, Jorge Morais. Bem a tempo das referidas comemorações.
O Jorge - que é monárquico :) - perdoa com certeza que eu exclame nesta data


VIVA A REPÚBLICA! VIVA PORTUGAL !


A implantação da República em Portugal, em 5 de Outubro de 1910 (completam-se agora 95 anos), não foi resultado exclusivo da revolta militar personificada na Rotunda pelo comandante Machado Santos e apoiada nas ruas pelas células carbonárias de Lisboa. Uma conspiração internacional, envolvendo a Maçonaria inglesa e a Família Real britânica, deu aos revoltosos portugueses a garantia prévia (e escrita) de que a Inglaterra, a França e a Espanha não levantariam um dedo para salvar a Dinastia de Bragança. E só depois de obtida esta garantia o estado-maior revolucionário avançou para pôr fim à Monarquia mais antiga do Continente Europeu.

Numa reconstituição historiográfica exaustiva, agora publicada em livro sob o título ?Com permissão de Sua Majestade?, o jornalista e investigador Jorge Morais sustenta que, em 5 de Outubro, as tropas revoltosas se limitaram a seguir o ?sinal verde? dado a partir de Londres pelo poderoso ?lobby? liberal radical (em que pontificavam altos dignitários maçons, homens de negócios ingleses com interesses na África portuguesa e jornalistas de influência internacional) com conhecimento e permissão de dois membros da Família Real britânica: o próprio Rei Jorge V e seu tio, o Duque de Connaught.

Na sua obra, baseada em documentação de grande rigor historiográfico mas apresentada numa linguagem acessível ao leitor comum, o autor relata como, em Setembro de 1909, o Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano, Sebastião de Magalhães Lima, viajou secretamente para Londres a fim de obter garantias da congénere inglesa (cujo Grão-Mestre era então o Duque de Connaught, filho favorito da Rainha Victoria e irmão do Rei Eduardo VII) de que o golpe em Lisboa teria a aprovação do Governo de Sua Majestade, chefiado por Asquith e integrado por Winston Churchill, Lloyd George e Edward Grey ? maçons de inegável peso na política mundial da época.

Valendo-se de uma teia de cumplicidades maçónicas, políticas, jornalísticas e financeiras, Magalhães Lima voltou a Londres em Julho de 1910 (já com o Rei Jorge V no Trono), agora acompanhado pelo abastado homem de negócios e dirigente republicano José Relvas, para ouvir da boca de um membro do Governo inglês a confirmação de uma ?neutralidade compreensiva?. A posição das autoridades de Londres, expressa por escrito num Memorandum secreto a que o autor teve acesso nos Arquivos Nacionais britânicos, permitiu aos revoltosos lançarem-se confiadamente numa revolução que, sem esse apoio, tinha falhado de tentativa em tentativa nos 20 anos anteriores. E, com efeito, três meses após o seu encontro reservado no Foreign Office, a República estava implantada em Portugal.
?Com permissão de Sua Majestade? traça o quadro político, nacional e internacional, em que decorre esta conspiração; comprova a ligação dos principais intervenientes à Maçonaria e ao ?lobby? radical europeu; transcreve correspondência, até hoje mantida no silêncio dos arquivos, entre a Grande Loja Unida de Inglaterra e altos dirigentes do Grande Oriente Lusitano; reconstitui as viagens do Grão-Mestre português e a sua passagem pelas Lojas de Londres; evidencia o ambíguo papel do Rei Jorge V (primo do último Monarca português, D. Manuel II) em toda a trama; e revela por extenso o Memorandum do Ministério britânico dos Negócios Estrangeiros que permitiu aos revolucionários de Lisboa implantarem, por fim, a República em 5 de Outubro de 1910.