quinta-feira, agosto 28, 2003

E IA CALAR-ME PERANTE ISTO ?

Não posso manter o silêncio perante as ofensas verdadeiramente atrozes que Eduardo Prado Coelho faz hoje a António Guterres. CURIOSAMENTE, no mesmo dia em que João Cravinho sugere o nome deste como cabeça de lista do PS às eleições europeias.

Já todos sabemos que certa ala esquerda do PS está disposta a tudo, inclusive a perder as presidenciais, para evitar que Guterres, o qual não consideram sequer socialista, seja candidato a Presidente da República. Mas EPC vai longe demais.


Antes de mais, EPC considera-a uma candidatura derrotada à partida. E já nem vou repetir a velha história da sondagem que dava 8% a Mário Soares, depois eleito pelos Portugueses como nosso Presidente. E reeleito. Ora, está completamente equivocado. Não há à esquerda candidatura mais vencedora. Não só pelo peso político e pelo perfil do ex-Primeiro-Ministro, como também porque tem a razão e o coração que faltam a qualquer outro presumível candidato. De esquerda e de direita.

Portugal precisa de um Presidente da República com prestígio internacional. Que possa devolver a esperança aos Portugueses. Que sirva como farol da modernidade. Todo e qualquer outro nome não preenche estes requisitos nem tem o apoio e carinho populares que Guterres tem. Mais, todo e qualquer outro nome arrisca-se, esses sim, a perder as eleições, algo verdadeiramente impensável numas eleições de cariz marcadamente ideológico que, em tempos de combate, a esquerda sempre venceu.
Guterres que é um homem do presente e do futuro certamente vencerá Cavaco. É um homem com credibilidade a todos os níveis, e por isso certamente derrotará um país de gente fútil e apenas voltada para as aparências, que Santana Lopes personifica, mesmo que não seja essa a sua vontade.

Aliás, as intenções de EPC são claras. Diz ele que muita esquerda convicta prefere votar Freitas do Amaral a Guterres. "E que me é difícil empenhar numa campanha eleitoral com a convicção de que se trata de uma candidatura naturalmente perdida".

Ora, esquece-se certamente de que ainda há mais gente de esquerda convicta que não votará Freitas do Amaral em circunstância alguma, por, de facto, não ser um homem de esquerda, mas do centro/centro-direita. Acima de tudo um gaullista que merece todos os elogios por ideologicamente se encontrar exactamente no mesmo sítio onde estava há 30 anos. Depois, essa expressão "esquerda convicta" não engana ninguém. É mesmo para dar a indirecta de que nem todo o PS é de esquerda. E só aqueles que insistem, sabe-se lá para quê, em usar a palavra "esquerda" por tudo e por nada é que são. Esses e todos aqueles de uma suposta ala esquerda, tida como a única linha política realmente socialista. Aliás, José Sócrates foi lapidar, no último Congresso do PS, ao dizer que para que é que que estamos a discutir se somos mais esquerda ou menos esquerda, se é um facto consumado que o PS é de esquerda ?

Quanto à dificuldade de empenho de EPC, apenas tenho a dizer-lhe isto. Militantes como ele, qualquer partido político dispensa. Os militantes querem-se presentes nas horas boas e nas horas más. Aliás, a deputada Custódia Fernandes, que normalmente só é referenciada na imprensa para ser enxovalhada, teve a seguinte atitude na noite das últimas eleições legislativas, "Perdemos, por isso é que temos que ir todos para a sala estar com o Ferro agora que ele vai falar". Isto sim, é atitude.
O empenho de cada um é sempre necessário. Mas assim só se prova que EPC só aparece quando acha que vai tudo correr bem na sua perspectiva. Escusado será dizer que nunca se poderia contar com ele para combates terrivelmente difíceis como as últimas eleições autárquicas no município de Oeiras. E não sei porquê, fez-me lembrar daquelas figurinhas que o PS e o PSD tão bem conhecem, que só aparecem à tona de água quando o partido está no Governo ou em vias de o ser.
Aí tenho que elogiar Rui Rio aquando do seu discurso da vitória, ao elogiar aqueles que sempre disseram PRESENTE naquela que era uma campanha eleitoral provavelmente condenada ao insucesso.


Quanto às reservas expostas por EPC, são todas elas de bradar aos céus. Ora vejamos.

A suposta maneira como afasta Manuela Arcanjo e Fernando Gomes. A memória dos homens por vezes é curta, e eu recordo-me perfeitamente de Manuela Arcanjo ter dito que pedira para sair do Governo alguns meses antes de ter sido substituída.
Quanto a Fernando Gomes, as suas posteriores atitudes e a derrota implacável que o povo do Porto lhe concedeu dizem tudo. E é muito fácil lançar intrigas para os jornais e tentar fazer do então Primeiro-Ministro bode expiatório.

Claro que EPC teria que falar da RTP. E quando todos culpam Alberto Arons de Carvalho, vem atribuir todas as culpas a Guterres. A direita não faria melhor. Evidentemente que EPC está desiludidíssimo por Guterres nunca ter aceite as pressões pseudointelectuais para repor a taxa de televisão nem obrigar a uma programação no sentido por aqueles defendido, ou seja, fazendo da programação aquilo por eles designado como "serviço público". Algo profundamente chato e triste. Uma apagada e vil tristeza, que ao afastar radicalmente as audiências retiraria todo e qualquer peso à RTP, inviabilizando a prestação desse serviço público que julgam defender.
Mas enfim, de quem acha que tudo o resto é secundário e que na prática o orçamento deveria ter como absoluta prioridade a concessão de dinheiros para a cultura erudita, não seria de esperar outra coisa.

E continua. "O lamentável episódio do queijo limiano". EPC de facto não faz a menor ideia do que é governar. E esquece-se de que Guterres quis de facto cumprir o mandato que o povo lhe dera. E por isso, sendo impossível a viabilização do Orçamento de Estado pelas vias normais dos partidos, havia quem estivesse disposto a fazê-lo. Talvez não fosse essa a minha opção no seu lugar, e arriscaria eleições jogando o tudo ou nada. Mas há que respeitar quem quis cumprir escrupulosamente um mandato de 4 anos, e que só se demitiu (embora eu não o fizesse) por considerar os resultados eleitorais das eleições autárquicas como um cartão vermelho dirigido à sua pessoa.

Quanto ao "lamentável episódio da taxa de alcoolémia", mais uma vez se nota a absoluta parcialidade de EPC e a sua vontade de enxovalhar publicamente Guterres. Como se a posição de Severiano Teixeira (alguém sem qualquer currículo político anterior, diga-se) fosse mais importante que a do Primeiro-Ministro.
E mais, a asneirada começou logo com toda a lógica da medida. "0,2 porque é o que a Suécia tem"...como se a Suécia neste tipo de medidas fosse um exemplo a ter em conta.

E conclui da pior das maneiras. EPC acusa Guterres de fazer política rasteira. Ora...provas ? Onde está ela ? Qual política rasteira ? A única política rasteira que vejo é este ataque verdadeiramente torpe. Olhem ao que eu digo, não olhem ao que eu faço.

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