sexta-feira, julho 20, 2007

A mim não me enganam vocês

Após ler esta notícia, não posso deixar de fazer as seguintes considerações:

1. A defesa do fim da obrigatoriedade de reintegração do trabalhador despedido sem justa causa só prova que o objectivo da CCP, CAP, CIP e CTP é o despedimento livre "porque sim". Ainda que houvesse lugar ao pagamento de uma indemnização. E que a sua defesa dos despedimentos livres não tem por base quaisquer considerações de ordem económica, mas apenas para que possam ter todo o poder numa relação laboral. O que é revelador da merda de empresários que temos neste país. E sim, escrevi "merda" propositadamente.
Um bom empresário quer saber de produzir. Pelos vistos, os empresários portugueses só se importam em sentir poder e em querer rebaixar outros.
Já agora: a intervenção parlamentar de Francisco Louçã foi profundamente infeliz, ao centrar-se nos despedimentos políticos e ideológicos em vez de ir ao essencial da questão.

2. A redefinição do conceito de justa causa não só seria mais grave ainda como é manifestamente impossível: só existem justa causa subjectiva e objectiva, não se vislumbrando qual outra pode existir.
E, aliás, definir justa causa por referência aos interesses da empresa é absurdo: a justa causa subjectiva refere-se ao comportamento do trabalhador, e a justa causa objectiva a factos objectivos que tornem impossível a subsistência da relação de trabalho, tais como a extinção do posto de trabalho.

3. Querer retirar às associações sindicais o direito de exercício da contratação colectiva, pelo menos na realidade portuguesa, significa ser contra a contratação colectiva, com todas as desvantagens que daí obviamente advêm. O que é em absoluto inaceitável.

4. Querer restringir o direito à greve à defesa de interesses profissionais e depois de esgotado o recurso a "formas pacíficas de solução de conflitos" também apenas demonstra uma mentalidade tacanha que é totalmente contra a existência de todos e quaisquer direitos dos trabalhadores, querendo impor a força do seu lado negocial. Simplesmente nojento.

5. O que me obriga, em conclusão, a concordar com o essencial das declarações da CGTP: o objectivo dos empresários portugueses é o regresso às relações laborais do regime salazarista. Ponto final parágrafo.

4 Comentários:

Às 21 julho, 2007 09:28 , Anonymous Anónimo disse...

a contratação colectiva não é inconcebível se não por meio das associações sindicais! Estas, por sua vez, não passam de grupos de agitadores sem interesse pelas reais dificuldades dos seus colegas, assim como um instrumento da oposição aos diferentes governos. O que bem se prova pelas reivindicações inapeláveis, pelas legitimações generalistas dos eventos que são prática sindical e pela falta de um sentido alargado decorrente das reivindicações, que constituísse um modelo social, que não seja ganhar votos ou preparar uma revolução marxista...

 
Às 21 julho, 2007 13:02 , Blogger Pedro Sá disse...

Este comentário é bem revelador da triste realidade da direita portuguesa, completamente salazarista na sua mentalidade, e que é completamente contra qualquer trabalhador ter qualquer tipo de direitos.

O que leva a um dos maiores problemas: a inexistência, ao contrário do que acontece na maioria dos países europeus, de sindicatos de direita, o que potencia uma mentalidade segundo a qual o trabalhador que deseja ter direitos é porque não quer trabalhar.

Um nojo.

 
Às 21 julho, 2007 19:58 , Blogger Tribuna Socialista disse...

Caro Pedro Sá,

Aleluia!!! ... finalmente estamos de acordo!

João Freire

 
Às 22 julho, 2007 00:26 , Blogger Pedro Sá disse...

Pois...se houvesse alguma dúvida quanto a eu ser de esquerda...a minha reacção instintiva quase que ESTOMACAL a isto...

Quem já me chamou neoliberal que o engula...é que há questões como os direitos dos trabalhadores...a existência de sistemas públicos de saúde, de segurança social, de educação...que não são sequer discutíveis...ainda que possam existir parcerias público/privadas na saúde, e que possa haver alguma concorrência entre diversas opções até disponíveis por privados mas DENTRO do sistema público na segurança social...percebes ?

É nestas questões que está a diferença essencial entre esquerda e direita...questões de universalidade destes sistemas essenciais.

 

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