sábado, janeiro 31, 2004

O Mito

Para grande infelicidade de Cavaco Silva, o lugar de Presidente da República não pode ser ocupado nem por convite, nem por nomeação. É necessário ir a votos, e quem decide são os eleitores. Não é nem José Manuel Fernandes, nem o Grupo Espírito Santo, nem os seus «ajudantes», que hoje já são Ministros.

Aliás, talvez seja a recordação dessa derrota contra Jorge Sampaio que faz o Professor hesitar, para que não tenha dúvidas e não erre. E a memória daquela chatice das campanhas eleitorais, de ter de se misturar com o povo, que por vezes não compreende que ele é providencial. Já deveria ter o estatuto de se limitar às Palestras, Colóquios e Conferências, onde a sua corte bebe, embevecida, cada palavra que profere.

Daqui se compreende o Sebastianismo que percorre uma certa Direita portuguesa, que se esmera em criar o clima de suficiente neblina, para que o Professor se decida e regresse, para nossa salvação.

A multi-sondagem do «Público» hoje é mais um contributo para esse desígnio nacional de criar a vaga de fundo que convença de vez Cavaco Silva a ir a jogo. E José Manuel Fernandes (quem mais?) bem escreve «À Espera de Cavaco».

Não deixa de ser curioso olhar para a história de Portugal, através do livro de Helena Matos recém publicado: «Salazar – A Construção do Mito».
Não quero ser mal interpretado por comparações inconvenientes que não pretendo fazer.
Contudo, ao ler JMF descrever Cavaco Silva como aquele político não profissional, com «falta de paciência para o seu partido e para as suas intrigas», no recato das suas «motivações pessoais e familiares», não deixa de haver semelhanças na construção do 'Mito Cavaco Silva', que um dia foi à Figueira da Foz fazer a rodagem ao seu carrinho novo (com o Congresso antecipadamente preparado por Eurico de Melo para o eleger Presidente do partido).

Mas uma vez na nossa história, é preciso ir convencer um Professor de Finanças da sua importância para o País. Só que desta vez ele não está em Coimbra, mas em Lisboa.


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