terça-feira, outubro 05, 2004

Congresso do PS

Na passadeira vermelha que o PS estendeu a José Sócrates no Congresso deste último fim-de-semana, duas nódoas foram bem visíveis: Jaime Gama e Sérgio Sousa Pinto.

Já aqui tinha chamado a esta Esquerda Moderna de Sócrates como uma espécie de Guterrismo sem diálogo. Jaime Gama e Sérgio Sousa Pinto quiseram mostrar a faceta arrogante e pedante desta nova via.

Jaime Gama, com a responsabilidade institucional que tinha como cabeça de lista de Sócrates à Comissão Nacional, não resistiu ao seu ódio de estimação a Manuel Alegre, em particular nas declarações que fez à SIC-Notícias. Ataques pessoais, infelizes e desnecessários, do alto de 80% dos votos, a um ícone do PS (quem criticava Ana Gomes?).

Sérgio Sousa Pinto, o das reformas fracturantes da esquerda, numa tentativa de manter, o seu enorme ego no Pavilhão do Congresso, e qual cristão-novo, também quis mostrar serviço. Já dizia o ditado popular: ?Com os sapatos do meu pai sou eu homem??

No Editorial de ontem do «Público», Eduardo Dâmaso comentou este episódio:

«Começou mal, por isso, a liderança de Sócrates, ao consentir a truculência estéril de Jaime Gama na apresentação de uma moção que deve ser o documento orientador de um projecto político e não um instrumento de ataques políticos despropositados.

O discurso de Gama empurrou o congresso para uma discussão fora do tempo, sobretudo no caso de um partido que ainda nem tem um projecto politico de oposição e de Governo. Foi ainda um momento que deixou emergir algumas das piores coisas que esta liderança do PS pode vir a ter e que está na soma da excessiva influência de figuras gastas como Jaime Gama e Pina Moura (ex-ministro da Economia, agora deputado. que vai acumular o mandato com o cargo de administrador de uma empresa espanhola...) com a arrogância imberbe de Sérgio Sousa Pinto.
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Hoje foi a vez de Eduardo Prado Coelho, também no «Público»:

«Depois de uma intervenção perversamente venenosa, segundo o estilo mais sofisticado de Jaime Gama, assistiu-se a uma triste "performance" de Sérgio Sousa Pinto, que parece capaz de tudo para se manter na proximidade do poder - e que instrumentaliza ideias com um cinismo imoderado. Poderíamos considerar que Sérgio Sousa Pinto tinha mudado de concepções políticas, o que é não apenas legítimo como por vezes desejável. Mas esta fúria de neófito justiceiro parece de mau augúrio. A ver vamos.
Sérgio Sousa Pinto, num momento arrebatado, tanto mais arrebatado quanto mostrava total falta de convicção, afirmou: "Não precisamos do Bloco de Esquerda. Não precisamos do PCP. O país não nos pede que façamos alianças à esquerda." Esta frase significa apenas: eu estou a falar em nome do país. Isto é, reencontramos o velho truque retórico de um discurso que se legitima "em nome de" - neste caso, em nome do país. Mas quem disse a Sérgio Sousa Pinto o que o país pede ao PS? Onde é que ele o descobriu? Quando é que foi iluminado pelos deuses da nação?
»

Valeu a lucidez de Jorge Coelho que, como de costume, veio apagar o fogo, levando a discussão dos ataques pessoais novamente para o plano político mediano que marcou o Congresso.

Em termos gerais, para além dos gestos de vassalagem do Aparelho a prestar juramento ao novo líder, se as eleições directas colocam o PS na vanguarda dos partidos políticos portugueses, este formato de Congresso é perfeitamente vulgar e inconsequente do ponto de vista político e merece uma reformulação urgente.

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