quinta-feira, agosto 25, 2005

FOGO POSTO

Estou no centro do país, rodeado de incêndios.
Os pinheirais em fogo esbraseiam o ar.
Reguei o telhado e o quintal porque as velhas são muitas.
A vizinha cega, sem qualquer progresso, vai tocando o seu órgão Tornado 4.
A irmã apanha velhas, mostra-mas na mão,
apagadas ou parecendo quase,
e fala do carteiro - motorizada aqui,
saco acolá, sapato mais além -
que, presuntivo pirómano, a si mesmo se teria apagado nas águas do Tejo.


O aeroplano da lista vermelha é que semeia o fogo.

Von Richthofen - passe-montanha, óculos à aviador, dentes cerrados -
é que vem semear o fogo no reino do verde pino.

Abatido em 18, resurgiu
com o estampido do guarda-chuva que se abre
e - pano, arame, madeira - ganha altura
para, numa vrille desaparafusada,
vir castigar-nos com sua espada de fogo.

Disse Deus: - Ó aviador, vai-me a essa gente remota
e avia-lhe uns fogos que se vejam!

Polegar para baixo, Von Richthofen
incêndiou milhares de hectares em Portugal.
Sua lista vermelha (laranja? limão?)
é vista com frequência na zona centro do país.

Disse Deus: - Basta. Já sinto calor na cara.

Este, que foi um herói ao serviço do Kaiser
- Cruz da Águia Vermelha.
Cruz da Águia Negra
Cruz de Ferro -,
descer, quando Deus quer, a incendiário de pinhais?

Credo, custa-me a crê-lo!




Alexandre O'Neill, in As horas já de números vestidas