terça-feira, agosto 30, 2005

Dia de desencontros


O mês de agosto tem consigo os desencontros do verão. Os
dias são longos, e talvez por isso chegamos ao fim deles a pensar que
não houve princípio. Há sempre alguma coisa que falta quando
nos lembramos do inverno. Aí, ao menos, o dia e a noite são o
próprio dia e a própria noite, e não um tempo parado entre fronteiras
de luz e de treva. Mas não sei se terei pensado nisto quando, ao
entrar no café onde ia ter contigo, te vi sentada como se esperasses
que o nosso encontro nunca se desse. Falámos nisso ao telefone: cada encontro
não se dá senão quando não o esperamos. O rosto, volto a dizê-lo, é
a rotina de estarmos juntos. Sei que a preferias. A vida precisa dos
seus instantes calmos, da eternidade de se estar como se pudesse sempre ser
assim. Mas quem espera a morte não sabe nunca se deve adormecer ou não,
se a manhã seguinte não lhe estiver garantida. Tu, em frente da chávena
de café, não precisas de pensar nisso. Vejo-te na rua, sem que me vejas,
e penso se hei-de entrar ou se volte para trás, para que o encontro
que estamos a ter não aconteça. Mas o teu ombro salta de dentro do vestido;
e os teus cabelos tapam o princípio da testa, como se me pedisses que os afaste
dos olhos. É verdade que eu não podia interromper este quadro: o café, onde
havia poucos clientes, e tu no meio deles, impondo a tua solidão mais
absoluta do que todas as solidões que alguma vez sonhei. Quero, então, discutir
contigo a filosofia das tardes de verão; levar-te para o campo, onde te despes, e
te vestes de terra e de ervas; fixar o amor que salta dos teus olhos
para saber o que é, exactamente, o amor. Mas tu olhas-me; e eu
escondo-me. A perfeição não tem nada a ver com estas hesitações. Preciso
que me voltes as costas, e que esperes por mim, como eu espero que tu
esperes por mim. Talvez um dia nos possamos rir de tudo
isto; ou chorar, o que não é nunca
a mesma coisa.

Nuno Júdice in Cartografia de Emoções